Óculos ajudam deficientes visuais a ler textos e a reconhecer pessoas

A expectativa pela chegada dos óculos inteligentes da empresa israelense Orcam me fez lembrar dos tempos em que aguardava ansiosamente o presente de Natal. Não à toa, acabei apelidando-os de “brinquedinho” assim que chegaram às minhas mãos.

Tinha ouvido falar do equipamento havia cinco meses quando, em viagem profissional para Israel, soube que os fundadores da Mobileye, empresa bilionária que faz tecnologia para carros autônomos, se aventuravam agora em tentar dar mais autonomia a cegos e pessoas que, como eu, têm baixa visão (grosso modo, que têm perda severa de visão, mas ainda a usa para algumas atividades).

Visitei a empresa dos carros, mas o cronograma apertado não deixou eu conhecer a iniciativa que me interessava mais, o que só aumentava a curiosidade. Muitos emails depois descobri que a companhia tinha uma representante no Brasil, a Mais Autonomia, que deixou eu testar os óculos por uma semana.

Ao pegá-los pela primeira vez, não houve como não me empolgar com sua elegância e leveza. O aparelho funciona a partir de uma pequena câmera grudada na haste, uma saída de som perto da orelha e um fio que a conecta à base, com cara de celular antigo, por onde os comandos são disparados.

Mas o entusiasmo foi se diluindo aos poucos conforme as experiências começaram.

Para ler um texto, é preciso olhar para ele e apertar um botão ou apontar com o dedo indicador. Com isso, os óculos fotografam a página e uma voz de computador começa a ler o que está escrito.

Não que o aparelho não funcione. A questão é que acertar a mira não é tarefa trivial para quem mal vê a página. Muitas vezes, o sistema acaba começando o texto pelo meio, avisando que há linhas ilegíveis ou que há texto abaixo fotografado.

Falhas assim acontecem bem menos no aparelho com cara de abajur que uso há cinco anos para ler textos impressos, pelo qual gastei com satisfação cerca de R$ 5.500 de minhas economias do primeiro ano como profissional.

Criado pela empresa Freedom Scientific e chamado Pearl Camera, ele fotografa as páginas desejadas, que devem ficar abertas sobre a mesa, para que sejam lidas no computador com software específico instalado —o que é uma grande desvantagem.

O sistema é vendido por R$ 1.600 pela empresa Tecassistiva. Enquanto isso, o Orcam custa quase R$ 15 mil (o Banco do Brasil tem linha de crédito que permite parcelar em até 60 vezes).

Retrato de Marina Guimarães, que adquiriu deficiência visual ainda bebê, que testa o óculos inteligente equipado com inteligência artificial lendo um livro
A funcionária pública Marina Guimarães testa óculos que leem textos para deficientes visuais
Eduardo Anizelli/Folhapress

EMPURRE OU PUXE

Também há prazeres no uso do aparelho. No caso da funcionária pública Marina Guimarães, 31, experimentar o Orcam fez com que ela descobrisse que existem placas na porta de estabelecimentos com avisos do tipo “empurre” ou “puxe”.

Cega em razão do nascimento prematuro, ela diz que encontrou as placas depois de se empolgar com a possibilidade de achar novos textos em seu caminho e passar a fotografar tudo o que podia na rua. Achou curioso o fato de pessoas que enxergam precisarem de aviso para não trombar.

No entanto, tirar fotos para todos os lados, como ela concordaria, não tem uma grande utilidade. A leitura de placas serve em casos específicos de quem consegue as ver, mas não tem visão suficiente para enxergar as letras.

A maior utilidade que Marina encontrou até agora é a leitura de cardápios. Ela explica que, quando existem em braille, geralmente estão desatualizados.

RECONHECIMENTO

O Orcam também tem algumas funções secundárias, como reconhecimento de rostos e produtos.
Parece uma ideia boa.

Não enxergar bem quem está ao lado é um transtorno, especialmente trabalhando em uma Redação com centenas de pessoas, a maioria delas achando que dizer “oi, Filipe” é o suficiente para eu saber quem vem lá, talvez com um superpoder que combina memória de elefante e audição de morcego.

O jeito é responder com leve sorriso, sem entusiasmo que assuste os pouco conhecidos nem frieza que desaponte os mais chegados.

Para que o Orcam ajude a reconhecer pessoas, é preciso tirar fotos a um metro de distância, olhando na direção dos olhos, a partir da câmera dos óculos. O que na maioria das vezes gerou risos e levou até a pergunta: “Você vai me pedir em casamento?”.

Quando o aparelho aprova a foto, por conseguir registrar os traços da pessoa, pede que se diga o nome dela. O áudio é gravado e, sempre que a pessoa passa na frente, minha voz anuncia seu nome.

Mas o processo, divertido, gerou poucos resultados. Após fotografar uma dúzia de colegas no jornal, percebi que as pessoas com quem teria intimidade suficiente para pedir que as flerte por uns instantes já atingiram nível de familiaridade para o qual o reconhecimento eletrônico não é necessário. Sempre identificava quem estava próximo antes do aparelho.

No fim, acho que esse Natal fora de época foi daqueles em que se esperou muito, mas só vieram camisas e meias. Meu consolo é que, com o tempo, tecnologias evoluem, ficam mais baratas e passamos a gostar mais de ganhar roupas.

Levando em conta que o produto estará em evolução nos próximos anos, seguirei aguardando empolgado as futuras versões.