Hemispheric desenvolve tecnologia capaz de analisar sinais cerebrais de forma não invasiva e abre novas possibilidades para o diagnóstico e tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas
Israel está mais uma vez na fronteira entre tecnologia e medicina. A startup israelense Hemispheric desenvolveu o Descartes, um modelo de inteligência artificial criado para interpretar a atividade elétrica do cérebro e identificar padrões que podem ajudar médicos a compreender melhor doenças neurológicas e psiquiátricas.
A tecnologia busca transformar sinais cerebrais em informações clínicas objetivas, em uma abordagem que pode, no futuro, contribuir para a identificação e o tratamento de condições como depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), Parkinson e Alzheimer.
O projeto é liderado por Gidi Littwin, ex-integrante da Apple e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema Face ID, e pelo neurocientista Hagai Lalazar. A dupla trabalhou durante mais de seis anos para desenvolver uma inteligência artificial capaz de compreender o que os sinais elétricos do cérebro podem revelar sobre seu funcionamento.
Um dos maiores bancos de dados cerebrais do mundo
Para enfrentar um dos principais desafios da neurociência — a enorme diferença entre os sinais cerebrais de cada indivíduo — a Hemispheric criou uma rede internacional de laboratórios para coletar dados de atividade cerebral de aproximadamente 100 mil voluntários em Israel, na Ásia e nos Estados Unidos.
Segundo a empresa, o Descartes foi treinado com mais de 250 mil horas de registros de eletroencefalograma (EEG) e um modelo com bilhões de parâmetros. A escala dos dados permite à inteligência artificial identificar padrões que seriam muito mais difíceis de perceber individualmente.
A proposta é aplicar à atividade cerebral uma lógica semelhante à utilizada pelos grandes modelos de linguagem: assim como uma IA consegue interpretar o significado de palavras e frases, o Descartes busca interpretar os “sinais” produzidos pelo cérebro.
Exame rápido e sem procedimentos invasivos
Uma das características mais promissoras da tecnologia é sua simplicidade.
O paciente utiliza um capacete de EEG, semelhante a um capacete de bicicleta, durante aproximadamente 15 minutos. Enquanto isso, realiza atividades interativas em um tablet ou celular, desenvolvidas para estimular diferentes funções cerebrais. A inteligência artificial analisa os sinais captados durante essas atividades.
Segundo a Hemispheric, o sistema busca identificar o perfil cerebral individual de cada pessoa, o que poderá ajudar não apenas na detecção de doenças, mas também na avaliação de transtornos psiquiátricos e na previsão da resposta de determinados pacientes a tratamentos.
A visão de longo prazo dos fundadores é ainda mais ambiciosa: tornar a análise cerebral um exame de rotina, tão acessível quanto um exame de sangue.
“Queremos que uma pessoa possa ir ao médico, fazer um exame cerebral em poucos minutos e sair com informações úteis para melhorar seu tratamento”, afirmou o CEO da empresa, Hagai Lalazar.
Israel na fronteira entre IA e saúde
A Hemispheric representa uma das características mais marcantes do ecossistema israelense de inovação: a combinação entre ciência, empreendedorismo e tecnologia para enfrentar problemas complexos.
O país, conhecido internacionalmente por sua força em inteligência artificial, biotecnologia e tecnologias médicas, vem criando soluções que buscam levar descobertas de laboratórios para aplicações capazes de impactar a vida de milhões de pessoas.
No caso da Hemispheric, a ambição é ajudar a transformar a maneira como o cérebro é compreendido e como doenças neurológicas e psiquiátricas são diagnosticadas.
A tecnologia, porém, ainda está em fase de validação e precisa demonstrar sua eficácia em populações mais diversas e em estudos clínicos antes de ser incorporada à prática médica. Especialistas também apontam limitações próprias do EEG que precisam ser consideradas.
Ainda assim, a iniciativa mostra até onde pode chegar a combinação entre o talento científico israelense e a inteligência artificial: dar às máquinas a capacidade de interpretar um dos maiores mistérios da humanidade — o funcionamento do cérebro humano.
