Em vez de procurar entre milhões de moléculas uma que possa combater o câncer, uma empresa israelense decidiu inverter o processo: primeiro definir exatamente o que o anticorpo deveria fazer e, depois, utilizar inteligência artificial para projetar uma molécula capaz de executar essa função.
A tecnologia foi desenvolvida pela Biolojic Design, empresa israelense fundada pelo professor Yanay Ofran, e deu origem ao Imneskibart, um anticorpo que atualmente está sendo estudado em pacientes com câncer. Segundo a empresa, trata-se do primeiro anticorpo humano projetado computacionalmente a chegar a testes em seres humanos.
Quando a IA deixa de procurar e começa a projetar
O desenvolvimento de medicamentos tradicionalmente envolve a identificação e seleção de moléculas que apresentam determinadas características. A proposta da Biolojic Design é diferente.
Fundada em 2008, a empresa combina biologia computacional, aprendizado de máquina e desenvolvimento de medicamentos para criar anticorpos com características previamente determinadas.
Sua plataforma analisa bilhões de medições relacionadas a anticorpos e utiliza essas informações para sugerir alterações em suas sequências. O objetivo é chegar a uma molécula que não apenas se ligue a um determinado alvo, mas que produza uma resposta biológica específica.
É uma mudança importante de conceito: em vez de descobrir por tentativa e erro, projetar de acordo com uma função definida.
Um anticorpo desenhado para direcionar o sistema imunológico
O Imneskibart, inicialmente chamado de AU-007, foi desenvolvido para atuar sobre a IL-2, uma proteína natural que participa da ativação e multiplicação de células do sistema imunológico.
A IL-2 já é conhecida há décadas por seu potencial no combate a tumores. O problema é que sua ação pode ter efeitos diferentes dentro do sistema imunológico. Ao mesmo tempo em que pode estimular células capazes de atacar o câncer, também pode ativar células reguladoras que reduzem a resposta imunológica.
A estratégia do Imneskibart é modificar esse equilíbrio.
O anticorpo se liga à IL-2 em uma região específica associada ao receptor CD25. Com isso, busca bloquear uma das vias relacionadas à ativação de células T reguladoras, enquanto preserva outra via capaz de estimular células T e células NK, que participam da resposta do organismo contra tumores.
Em termos simples, a ideia é direcionar melhor a resposta do sistema imunológico, estimulando as células que atacam o tumor e reduzindo a ação das que podem frear essa resposta.
Da inteligência artificial aos pacientes
Em 2021, a Biolojic Design e a empresa de investimentos Apple Tree Partners criaram a Aulos Bioscience, responsável pelo desenvolvimento clínico do anticorpo.
O primeiro paciente recebeu o tratamento em maio de 2022, em um estudo de Fase 1/2. O desenvolvimento avançou posteriormente para a Fase 2.
Em 2026, novos dados foram apresentados durante o congresso da American Society of Clinical Oncology, um dos principais encontros mundiais de oncologia.
O estudo envolveu 12 pacientes com melanoma metastático cuja doença havia avançado apesar de tratamentos anteriores de imunoterapia. Eles receberam Imneskibart em combinação com uma dose baixa de IL-2 e nivolumab.
Quatro pacientes apresentaram resposta parcial, com redução de 52% a 77% nos tumores avaliados. Outros quatro tiveram a doença estabilizada, resultando em uma taxa de controle da doença de 67% nesse pequeno grupo.
Ainda é pesquisa, mas o conceito já foi testado em humanos
Os resultados precisam ser interpretados com cautela. Trata-se de uma amostra pequena, sem grupo de controle, e os dados ainda são preliminares. O estudo continua avaliando o tratamento em melanoma e também em câncer de pulmão de células não pequenas. Ainda não é possível saber se o Imneskibart se tornará um medicamento aprovado.
O aspecto mais relevante da história, porém, vai além de um único medicamento.
O Imneskibart representa uma demonstração prática de um novo modelo de desenvolvimento de medicamentos: utilizar inteligência artificial e biologia computacional para projetar moléculas com uma função específica, em vez de depender exclusivamente de longos processos de descoberta e seleção.
Israel na fronteira entre IA e biotecnologia
A trajetória da Biolojic Design mostra como a inteligência artificial está avançando para além de aplicações em software, automação e análise de dados.
Em Israel, a combinação entre ciência, computação e empreendedorismo está sendo aplicada também a um dos campos mais complexos da inovação: o desenvolvimento de novos medicamentos.
Do algoritmo à molécula e da molécula aos testes clínicos, o Imneskibart mostra uma possibilidade que pode transformar a própria lógica de criação de terapias.
Ainda é cedo para saber o resultado clínico final dessa abordagem. Mas uma coisa já aconteceu: uma IA ajudou a transformar uma função desejada em um anticorpo real que chegou aos testes em pacientes.
