Agricultura em áreas desérticas de Israel pode servir de exemplo para o Nordeste

Com 60% de seu território composto por áreas desérticas e outros 40% classificados como semiáridos, Israel transformou uma limitação geográfica em motor de inovação. O país é hoje uma referência global em agricultura de alta tecnologia, gestão hídrica e produção eficiente de alimentos em condições climáticas adversas — um modelo que pode oferecer caminhos concretos para o semiárido nordestino.

A avaliação é do agrônomo Ari Fischer, nascido em São Paulo e radicado em Israel há mais de trinta anos. Especialista em agricultura e irrigação, ele conversou com o jornalista Ivan Godoy, da Rádio Senado, sobre as tecnologias que permitiram ao país “fazer o deserto florescer”.

Ciência, tecnologia e gestão da água

Segundo Fischer, o sucesso israelense se apoia em três pilares: inovação tecnológica, gestão eficiente de recursos hídricos e agricultura de precisão.

Um dos marcos foi o desenvolvimento da irrigação por gotejamento, tecnologia iniciada nos anos 1960 pelo engenheiro Simcha Blass. O sistema leva água diretamente às raízes das plantas, reduz drasticamente a evaporação e pode economizar entre 50% e 70% do volume utilizado na irrigação convencional. A técnica permite cultivar mesmo em solos arenosos e pobres em nutrientes.

Outro diferencial é o reaproveitamento de água. Israel reutiliza cerca de 90% da água de esgoto tratado — a maior taxa do mundo — destinando-a integralmente à agricultura. Para efeito de comparação, o segundo colocado nesse ranking reaproveita cerca de 20%.

O país também investiu fortemente em dessalinização. Atualmente, cinco grandes usinas transformam água do mar em água potável, com outras em construção. A estratégia garante segurança hídrica de longo prazo e reduz a vulnerabilidade às secas prolongadas.

Agricultura de precisão e inteligência artificial

A digitalização do campo é outro componente essencial. Sensores instalados nas lavouras monitoram em tempo real as necessidades hídricas das plantas, acionando a irrigação apenas quando necessário. “A planta passou a tomar água quando tem sede”, resume Fischer.

Esse monitoramento evita o estresse hídrico, aumenta a produtividade e reduz desperdícios. A viticultura é um exemplo emblemático: o uso de tecnologia permitiu ampliar a produção de uvas e consolidar a exportação de vinhos israelenses para diversos mercados internacionais.

Além disso, o país investe em estufas de ambiente controlado, hidroponia, desenvolvimento de variedades resistentes à seca e manejo integrado do solo. Há, por exemplo, cultivares de tomate que demandam menos água que as variedades tradicionais.

Produção intensiva em território limitado

Mesmo com apenas cerca de 20% do território considerado arável — uma área comparável ao tamanho do estado de Sergipe — Israel alcançou autossuficiência nos principais alimentos básicos.

Entre os destaques da produção agrícola estão frutas e hortaliças como uvas, mangas, melões, tâmaras, tomates e pimentões. O país também já figurou entre grandes exportadores de frutas cítricas in natura.

Na pecuária, a produção leiteira chama atenção: uma vaca israelense pode alcançar média anual de até 12 mil quilos de leite, uma das mais altas do mundo. A piscicultura intensiva também apresenta elevado índice de produtividade por metro cúbico de água.

Pontes com o semiárido brasileiro

Para Ari Fischer, parte dessa experiência pode ser adaptada ao contexto brasileiro, especialmente no Nordeste. Entre as soluções com maior potencial de aplicação estão:

  • Ampliação da irrigação por gotejamento;
  • Reuso de água para fins agrícolas;
  • Dessalinização da água do mar com distribuição para o interior;
  • Monitoramento digital e uso intensivo de dados;
  • Aplicação de inteligência artificial para otimizar recursos.

“O desafio é produzir mais com menos”, afirma o agrônomo. Ele destaca que o Brasil já utiliza algumas dessas tecnologias, mas poderia avançar na integração digital e na gestão de precisão.

A cooperação técnica entre Brasil e Israel, especialmente em áreas como inovação agrícola, segurança hídrica e transformação digital no campo, abre oportunidades estratégicas. Em um cenário de mudanças climáticas e crescente pressão sobre recursos naturais, a experiência israelense demonstra que limites geográficos podem ser superados com ciência, planejamento e investimento contínuo em tecnologia.

Para o Nordeste brasileiro, onde a escassez hídrica é um obstáculo histórico ao desenvolvimento, o exemplo israelense não é apenas inspirador — pode ser parte concreta da solução.